O meu corpo é agora húmus e ausência. Sombra a perturbar-te a vigília do sono - bolor que te cresce, luminescente, entre os dedos.
E a minha língua silenciosa, como a serpente, deslizará noite adiante em teu peito, à procura de alimento e de sossego.
 Mas não são os mortos que se alimentam com os vivos. São os vivos que escondem na memória o peso dos mortos. (…)
Quando as mãos encontrarem as mãos, e os olhos de um cegarem no fundo dos olhos do outro - recomeçaremos tudo. (…)

No instante em que se torna possível contar todas as histórias do mundo, tu dirás
(como se o tempo não fosse agora de cinza, como se o meu corpo ainda cantasse…):
 — Vives como se vivesses por trás das palavras de um poema. Existes se me amares.

 E eu direi:
— Dantes, eras uma visão. Sentia uma luz acender-se na pele e eras tu.
Hoje, preparo e bebo venenos para que o brilho daquilo que já não és venha ao de cinja, se solte do sangue e estremeça, cintile, e não se apague.

 Tu:
— O medo, o grande medo que se confunde com a serenidade, devora-te.
E se nos tocarmos perderemos a inocência; ou talvez tu morras e eu ressuscite.
Mas uma coisa é certa: não nos cruzaremos mais, estamos definitivamente sós. Eu enterrado.
Tu, respiras. (…)
 Procuro-te nos rostos que passam.
Sei que todos eles abrigam a tua morte.
Nenhum deles evoca o sorriso que te pertenceu. (…)

 A noite abre-se, imensa, e o tempo passa sobre o rosto como um fogo que tudo apaga. Os meus passos vão no sentido contrário ao teu sossego. Os dias avançam sem paixão. Os dias recuam e não encontro ninguém.
 Queimo o corpo neste desejo de te olhar, de te tocar; mas chove, está sempre a chover sobre aquilo que vivemos e é tarde, deves estar a dormir. Nenhuma palavra escrita fica intacta, arde, queima-me os dedos quando o teu nome alastra pela nocturna folha de papel.

 Tu sorris, dizes:
 — Vem, sem medo, pela aridez do meu corpo. No fundo de mim existe um poço onde guardo a tua imagem. É tempo de ta devolver.
É tempo de te reconheceres nela, mesmo se envelheceu. Vem, e beija a morte; repete esse gesto, como nos livros antigos se ensina a fazer.
Vem, o tempo urge…as constelações já iniciaram o movimento de mudança de hemisfério, e as dunas fenderam-se onde o mar avançou, e o mar toca-nos os olhos e o sono. Vem, antes que os cardos se espalhem com o vento, e a geada esconda a água dos poços, e a noite acabe, assim, sem prevenir, dentro duma mão que se fecha à luz. Vem, antes que os meus olhos só vejam o que tu não vês, e as minhas mãos já não toquem o que tu tocaste…e a tua boca se canse de procurar o que de ti ainda possuo, e do teu nome não reste mais que uma metade do meu.

 Depois morreste. O tempo e a luz devassando-te o rosto. Quase não me lembro de como vivias em mim. Durante o sono sinto de novo o teu corpo procurando o meu.

Al Berto, O Anjo Mudo