isto


Isto é o que está ao alcance do corpo e aquilo o que não está.  

Isto indica não só as proximidades do corpo, mas ainda as coisas em cujo contexto ele age e a partir do qual actua, as coisas em função das quais se orientará ao mover-se para novo contexto, para outro lugar. Isto é aquilo que está no ponto de convergência dos olhos, a coisa que se pode enquadrar entre as palmas da mão: a essa distância pálpável, e não mais. Isto é feito de corpo e espírito. 
É o corpo da ideia: isto é o corpo que amarra a ideia ao lugar onde o nosso ser se encontra. Só depois de a vermos assim amarrada a podemos deixar partir sem que ela se perca. 
Interessa ao nosso corpo ter as coisas importantes ao alcance dos olhos, que o transportam, mas também lhe interessa poder senti-las: senti-las, aqui, enquanto as vê ao longe. 


Isto e aquilo são padrões de proximidade ou distância. O Homem move-se transportando consigo, permanentemente, estas duas coordenadas. Sente na proximidade das coisas, por contacto directo ou quase. Mas também pode sentir na distância, cobrindo o espaço que o separa delas, imaginando, reduzindo a distância, tornando virtual a proximidade das coisas, como no cinema. Na proximidade, isto que eu sinto é a medida da relação íntima que mantenho com as coisas. É estar com elas. É o modo lento ou apressado de sentir a sua presença num tempo presente, que pode estender-se, dilatar-se, se não houver mudança. Mas como o meu modo natural de estar no mundo é a mudança, até porque as coisas mudam com frequência, o único modo que eu tenho de não perder as coordenadas é essa forma de sentir em permanência, de estar aqui, de sentir isto que sinto, situando-me num presente contínuo, irredutível: um presente que me permite sentir o que já senti, o que ficou para trás, e ao mesmo tempo aquilo que vou sentir quando o corpo cobrir toda a distância que me separa daquilo que irei alcançar. Aquilo que vejo é aquilo que estou sentindo e sentirei enquanto se mantiver o contacto. 
Os olhos da ideia, Ricardo Costa