fotografia

A força da fotografia consiste em conservar disponíveis instantes que o fluxo normal do tempo imediatamente substitui. Este congelamento de tempo - a insolente comovedora êxtase de cada fotografia - produziu cânones de beleza novos e mais abrangentes. 
Mas as verdades que podem ser reportadas a um momento isolado, por mais significativas ou decisivas, têm uma relação muito limitada com as exigências da compreensão.
Contrariamente ao que sugerem os argumentos humanistas a favor da fotografia, a capacidade da câmara para transformar a realidade em beleza deriva da sua relativa insuficiência como meio para veicular a verdade.

A câmara insinua que conhecemos o mundo se o aceitarmos tal como a câmara o regista. Mas isto é o oposto da compreensão, que se inicia justamente por não se aceitar o mundo como ele parece ser. Toda a possibilidade de compreensão está enraizada na capacidade de dizer não.
Em rigor, nunca se pode compreender nada a partir de uma fotografia. É claro que as fotografias preenchem vazios nas nossas imagens mentais do presente e do passado.
A maneira como a câmara apresenta a realidade esconde mais do que revela.

A câmara atomiza a realidade, torna-a manuseável e opaca.

excertos de "Ensaios sobre fotografia" de Susan Sontag